terça-feira, 2 de agosto de 2011

Se essa lua, se essa lua fosse minha..

Olha só, seu Pedro, você é bem bonito a noite, sabia? 
E de manhã também.
Você é bonito como a lua cheia...
Eu quero ser astronauta..


...
'Se eu, se voce gostar de mim... E como saber se é amor certo, o único? Tanto é o poder errar, nos enganos da vida... Será que voce seria capaz de esquecer de mim, e, assim mesmo, depois e depois, sem saber, sem querer, continuar gostando? Como é que a gente sabe? '

[Guimarães Rosa]

É lindo, é vasto..

"- Ele é feio e triste - disse a prima Hildebranda, quase aos prantos, mas é todo amor."


Ela lhe parecia tão bela, tão sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento, ou tivesse o coração descompassado com os ares e suspiros de suas mangas, ou não ficasse louco de amor o mundo inteiro com os ventos de sua trança, o vôo de suas mãos, o ouro do seu riso. Não perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer o encanto.
.
in O amor nos tempos do cólera

Gabriel Garcia Marquez
Pelo o que me diz respeito. Eu sou feita de dúvidas. O que é torto, o que é direito. Diante da vida. O que é tido como certo, duvido. E não minto pra mim. Vou montada no meu medo. E mesmo que eu caia, sou cobaia de mim mesma. No amor e na raiva, vira e mexe me complico. Reciclo, tô farta, tô forte, tô viva. E só morro no fim. E pra quem anda nos trilhos cuidado com o trem. Eu por mim já descarrilho. E não atendo a ninguém. Só me rendo pelo brilho de quem vai fundo. E mergulha com tudo, pra dentro de si. Lá do alto do telhado pula quem quiser. Só o gato que é gaiato, cai de pé..

(Martha Medeiros)
Eu peço à Palavra que me dê o seu poder de relatar 
ou inventar belezas ou uma delicadeza qualquer 
que surpreenda e faça sorrir


(Marla de Queiroz)
Eu Carrego seu coração comigo
(Eu o carrego no meu coração)
Eu nunca estou sem ele
(onde quer que eu vá, você vai, minha querida;
e o que quer que eu faça sozinho, eu faço por você, minha querida)

Eu não temo o destino
(porque você é o meu destino, minha doçura)
Eu não quero o mundo por mais belo que seja
Porque você é meu mundo, minha verdade.
Este é o maior dos segredos que ninguém sabe. 

(Você é a raiz da raiz, e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;
que cresce mais alta do que a alma pode esperar
ou a mente pode esconder.
Este é o milagre que distancia as estrelas

Eu Carrego seu coração
(carrego no meu coração)

Poema de E. E. Cummings

terça-feira, 5 de julho de 2011

Divagações






Ela.
 Em meu leito, durante a noite,
busquei o amor de minha alma:
procurei, mas não o encontrei.
 Hei de levantar-me e percorrer a cidade,
as ruas e praças,
procurando o amor de minha alma:
Procurei, mas não o encontrei.
 Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade.
Vistes o amor de minha alma?
 Apenas passara por eles,
encontrei o amor de minha alma:
agarrei-me a ele e não o soltarei.


(Antigo Testamento - Cântico dos Cânticos - Salomão)

...



Ela.
 Enquanto o rei está em seu divã,
meu nardo exala seu perfume.
 O meu amado é para mim
como bolsa de mirra sobre meus seios;
 o meu amado é para mim
como um cacho florido de alfena dos vinhedos de Engadi.
Ele.
 Como és formosa, minha amada!
Como és formosa, com teus olhos de pomba!
Ela.
 E tu, meu amado, como és belo,
como és encantador!
O verde gramado nos sirva de leito!
 Cedros serão as vigas de nossa casa,
e ciprestes, as paredes.


Ela.
 Eu sou o narciso de Saron,
o lírio dos vales.
Ele .
 Sim, como o lírio entre espinhos
é, entre as jovens, a minha amada.
Ela.
 Como a macieira entre árvores silvestres
é, entre os jovens, o meu amado.
À sua sombra eu quisera sentar-me,
pois seu fruto é saboroso ao meu paladar

(Antigo Testamento - Cântico dos Cânticos - Salomão)

sábado, 11 de junho de 2011

JÁ FUI DE ESCONDER O QUE SENTIA,

"Embaixo de um guarda-chuva, numa noite fria e molhada, um homem diz para uma mulher o que ela sempre precisou ouvir. E eu pensei: como é fácil libertar uma pessoa de seus fantasmas e, libertando-a, abrir uma possibilidade de tê-la de volta, mais inteira. Falar o que se sente é considerado uma fraqueza.  Ao sermos absolutamente sinceros, a vulnerabilidade se instala.  Perde-se o mistério que nos veste tão bem, ficamos nus. E não é este tipo de nudez que nos atrai. Se a verdade pode parecer perturbadora para quem fala, é extremamente libertadora para quem ouve. É como se uma mão gigantesca varresse num segundo todas as nossas dúvidas. Finalmente se sabe. Mas sabe-se o quê? O que todos nós, no fundo,  queremos saber: Se somos amados. Tão banal, não? E no entanto esta banalidade é fomentadora das maiores carências, de traumas que nos aleija  nos paralisam e nos  afastam das pessoas que nos são mais caras. Por que a dificuldade de dizer para alguém o quanto ele é — ou foi — importante? Dizer não como recurso de sedução, mas como um ato de generosidade, dizer sem esperar nada em troca. Dizer, simplesmente. A maioria das relações — entre amantes, entre pais e filhos, e mesmo entre amigos — ampara-se em mentiras parciais e verdades pela metade. Podem-se passar anos ao lado de alguém falando coisas inteligentíssimas, citando poemas, esbanjando presença de espírito, sem alcançar a delicadeza de uma declaração genuína e libertadora: dar ao outro uma certeza e, com a certeza, a liberdade. Parece que só conseguiremos manter as pessoas ao nosso lado se elas não souberem tudo. Ou, ao menos, se não souberem o essencial. E assim, através da manipulação, a relação passa a ficar doentia, inquieta, frágil. Em vez de uma vida a dois, passa-se  a ter uma sobrevida a dois. Deixar o outro inseguro é uma maneira de prendê-lo a nós — e este “a nós” inspira um providencial duplo sentido.  Mesmo que ele tente se libertar, estará amarrado aos pontos de interrogação que colecionou. Somos sádicos e ávaros ao economizar nossos “eu te perdôo”, “eu te compreendo”, "eu te aceito como és” e o nosso mais profundo “eu te amo”— não o “eu te amo” dito às pressas no final de uma ligação telefônica, por força do hábito, e sim o “eu te amo” que significa: “seja feliz da maneira que você escolher, meu sentimento permanecerá o mesmo".

Libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. Oprimi-la é trabalho para uma vida. Mais que as mentiras, o silêncio é que é a verdadeira arma letal das relações humanas. 



(Martha Medeiros)