terça-feira, 5 de julho de 2011

Divagações






Ela.
 Em meu leito, durante a noite,
busquei o amor de minha alma:
procurei, mas não o encontrei.
 Hei de levantar-me e percorrer a cidade,
as ruas e praças,
procurando o amor de minha alma:
Procurei, mas não o encontrei.
 Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade.
Vistes o amor de minha alma?
 Apenas passara por eles,
encontrei o amor de minha alma:
agarrei-me a ele e não o soltarei.


(Antigo Testamento - Cântico dos Cânticos - Salomão)

...



Ela.
 Enquanto o rei está em seu divã,
meu nardo exala seu perfume.
 O meu amado é para mim
como bolsa de mirra sobre meus seios;
 o meu amado é para mim
como um cacho florido de alfena dos vinhedos de Engadi.
Ele.
 Como és formosa, minha amada!
Como és formosa, com teus olhos de pomba!
Ela.
 E tu, meu amado, como és belo,
como és encantador!
O verde gramado nos sirva de leito!
 Cedros serão as vigas de nossa casa,
e ciprestes, as paredes.


Ela.
 Eu sou o narciso de Saron,
o lírio dos vales.
Ele .
 Sim, como o lírio entre espinhos
é, entre as jovens, a minha amada.
Ela.
 Como a macieira entre árvores silvestres
é, entre os jovens, o meu amado.
À sua sombra eu quisera sentar-me,
pois seu fruto é saboroso ao meu paladar

(Antigo Testamento - Cântico dos Cânticos - Salomão)

sábado, 11 de junho de 2011

JÁ FUI DE ESCONDER O QUE SENTIA,

"Embaixo de um guarda-chuva, numa noite fria e molhada, um homem diz para uma mulher o que ela sempre precisou ouvir. E eu pensei: como é fácil libertar uma pessoa de seus fantasmas e, libertando-a, abrir uma possibilidade de tê-la de volta, mais inteira. Falar o que se sente é considerado uma fraqueza.  Ao sermos absolutamente sinceros, a vulnerabilidade se instala.  Perde-se o mistério que nos veste tão bem, ficamos nus. E não é este tipo de nudez que nos atrai. Se a verdade pode parecer perturbadora para quem fala, é extremamente libertadora para quem ouve. É como se uma mão gigantesca varresse num segundo todas as nossas dúvidas. Finalmente se sabe. Mas sabe-se o quê? O que todos nós, no fundo,  queremos saber: Se somos amados. Tão banal, não? E no entanto esta banalidade é fomentadora das maiores carências, de traumas que nos aleija  nos paralisam e nos  afastam das pessoas que nos são mais caras. Por que a dificuldade de dizer para alguém o quanto ele é — ou foi — importante? Dizer não como recurso de sedução, mas como um ato de generosidade, dizer sem esperar nada em troca. Dizer, simplesmente. A maioria das relações — entre amantes, entre pais e filhos, e mesmo entre amigos — ampara-se em mentiras parciais e verdades pela metade. Podem-se passar anos ao lado de alguém falando coisas inteligentíssimas, citando poemas, esbanjando presença de espírito, sem alcançar a delicadeza de uma declaração genuína e libertadora: dar ao outro uma certeza e, com a certeza, a liberdade. Parece que só conseguiremos manter as pessoas ao nosso lado se elas não souberem tudo. Ou, ao menos, se não souberem o essencial. E assim, através da manipulação, a relação passa a ficar doentia, inquieta, frágil. Em vez de uma vida a dois, passa-se  a ter uma sobrevida a dois. Deixar o outro inseguro é uma maneira de prendê-lo a nós — e este “a nós” inspira um providencial duplo sentido.  Mesmo que ele tente se libertar, estará amarrado aos pontos de interrogação que colecionou. Somos sádicos e ávaros ao economizar nossos “eu te perdôo”, “eu te compreendo”, "eu te aceito como és” e o nosso mais profundo “eu te amo”— não o “eu te amo” dito às pressas no final de uma ligação telefônica, por força do hábito, e sim o “eu te amo” que significa: “seja feliz da maneira que você escolher, meu sentimento permanecerá o mesmo".

Libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. Oprimi-la é trabalho para uma vida. Mais que as mentiras, o silêncio é que é a verdadeira arma letal das relações humanas. 



(Martha Medeiros)

quarta-feira, 25 de maio de 2011





Nossos destinos 
Desde meninos dão-se as mãos 
Nossos destinos 
De pequeninos eram irmãos 
E os desatinos também tivemos que vivê-los bem juntinhos 
E os caminhos nos trouxeram pra esse lugar 
A que vamos ficar 
Amar, viver, lutar 
Até tudo acabar...

[Gilberto Gil]




*

sábado, 21 de maio de 2011

Cabe o meu amor...

Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa!


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Eu quero guardar teu beijo
Na concha das mãos
Teu cheiro eu levo feito mancha na roupa
Que eu nao lavo não
Sou alvo pros teus olhos claros parecidos
Com essa estação
E adoro os efeitos sonoros de quando você sussura
Absurdos no ouvido do meu coração
Se eu corro
Eu corro demais so pra te ver meu bem
É que eu quero um socorro
Se eu corro...
Se eu corro
Eu corro demais so pra te ver meu bem
É que eu quero um socorro
Se eu corro
Eu quero guardar teu beijo
Na concha das mãos
Teu cheiro eu levo feito mancha na roupa
Que eu nao lavo não
Se eu corro
Eu corro demais so pra te ver meu bem
É que eu quero um socorro
Se eu corro...

[A Banda Mais Bonita da Cidade]

sexta-feira, 6 de maio de 2011

'Que seja escandalosamente leve,
o amanhã.'




[Jaya Magalhães]
"Está tudo planejado: se amanhã o dia for cinzento, se houver chuva ou se houver vento, se eu estiver cansado dessa antiga melancolia cinza fria sobre as coisas conhecidas pela casa a mesa posta e gasta está tudo planejado apago as luzes, no escuro e abro o gás de-fi-ni-ti-va-men-te ou então visto minhas calças vermelhas e procuro uma festa onde possa dançar rock até cair"


Caio Fernando Abreu
"A gente nunca pode julgar o que acontece dentro dos outros." 

(CAIO F.)
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"Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha vida opaca vida com os mesmos olhos atentos que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos"


Caio Fernando Abreu



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