sexta-feira, 26 de março de 2010

Nossa casa



Em algum lugar bem longe.
Longe de nossas distâncias
e dos nossos silêncios.
Todo esse tempo que passou
passará novamente, porém, em completo
aconchego de uma casinha, em algum
lugar distante. Distante de tudo. Bem perto da gente.
Colado. Grudado. Até enjoar.
(eu sei que não...)
Cantaremos a nossa "muesia" pro resto da vida.

.

*

domingo, 14 de março de 2010

VAGABUNDO

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à Lua de noite serenatas
E quem vive de amor não tem pobreza!

Álvares de Azevedo

sábado, 20 de fevereiro de 2010


Quando você não pode olhar dentro da alma de alguém...
Tente ir embora e depois voltar.


Pasternak



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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

*


O que pode crescer sem chuva?
O que pode arder por anos a fio?
Pedras crescem sem chuva.
Mas somente o amor pode arder
por anos a fio.


Sabina Spielrein

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

três gatos e um marido alto

um amor puxa outro e agora eu gosto de gatos
tenho três gatos lindos
são meus filhotes, minha cria
eles tem uma pai que os adora muito
nós formamos uma familia um tanto estranha
porém muito feliz
mas tudo isso ainda é triste
triste porquê ? imaginar uma familia de gatos seria triste ?
mas quem sonha em ter uma familia com três filhos gatos e um marido alto ?

*

sim, eu sonho com isso

le plus bel amour

tenho um bebê emprestado
ganhei como um presente de natal
agora ele é meu e está guardado
ele anda, corre e grita
dentro de mim...


*

practically perfect in every way

você chegou tirando coisas fantásticas
de dentro da bolsa me encheu a boca
de açúcar me ensinou a rir até o teto
e sumiu num dia nublado com o guarda-
chuva em riste sobre as chaminés de londres
dizendo que volta quando der na telha.

Gregório Duvivier

domingo, 31 de janeiro de 2010

o meio de todas as coisas

entre o fim do começo e o começo
do fim toda coisa tem uma massa
inerte feito ponte pela qual
passamos distraídos - ou não:
os astecas sentiam chegar o exato
momento do meio da vida - o meio do meio
da vida, o momento em que o que já vivemos
é exatamente igual ao que ainda não vivemos
- e nesse momento preciso o mais comum
dos astecas sentia uma súbita e inexplicável
vontade de tomar um trem
mas como ainda não o tinham inventado
ele acabava por entristecer-se
(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)


Gregório Duvivier

sábado, 30 de janeiro de 2010

É frustrante estar frustrada

*


Na cadência das horas. No sublime desespero de corações compassados. Na realidade de ver-te ao pé de mim, bem perto, tanto que pude sentir o cheiro do seu perfume bom. Mas seu olhar era tão distante quanto o mar eo sertão. Feria com frieza o meu desespero. Era insuportável a minha impaciência e o formigamento das minhas mãos. Parecia uma adolescente ensandecida. Mas o pior de tudo foi a minha cara de 'fim de festa' no incio daquela noite bonita. E pra acabar comigo de uma vez, ainda teve a foto! Oh! Eu não sei o porquê, mas a minha cara parecia meio congelada. E a sua cara era de susto. Acho que eu não gosto de tirar fotos. . .



bobagens, meu filho,
bobagens. . .

É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade

Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalos nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas
mínimas ações - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para especulosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfasta. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.

Fernando Pessoa - Pensamentos